O Gado Caracú no Paraná
Pelo Eng. Agrônomo: MÁRIO MARCONDES LOUREIRO
O GADO CARACÚ NO ESTADO DO PARANÁ
(Elementos para o estudo histórico da
introdução do gado caracu em nosso
estado.)
Condições naturais adversas têm constituido o grande entrave á prosperidade das raças finas de gado de corte a pleno campo natural em quase todo, ou todo, o território paranaense. Com efeito, de um lado, as palhas grosseiras, celulósicas, da vegetação expontanea, não satisfazem as suas exigencias alimentares; de outro lado, o frio intenso do rigoroso inverno abate, aniquila, ou mesmo, faz sucumbir o rústico zebú, que, por sua origem tropical, só se adata convenientemente no clima quente dos nossos municípios do norte e nos demais estados de temperatura elevada.
Alguns dos nossos criadores empolgados pela memorável campanha jornalística movida pelo grande cientista, Dr. Luiz Pereira Barreto, em favor do melhoramento do gado Caracú por seleção, resolveram tomar parte na patriótica iniciativa, certos de que lograriam o êxito esperado.
Foi daí que os fazendeiros, João Antonio de Araújo Pimpão (Jango Pimpão), Brasileiro Pimpão Marcondes e Felippe schell Loureiro, combinaram importar reprodutores Caracu para aprimorarem seus rebanhos já de pelagem amarela a com traços característicos da raça focalizada, por descenderem de touros Caracú levados para Palmas, juntamente com Franqueiros, por um pioneiro do seu povoamento Col. Francisco Inácio de Araújo Marcondes – o velho Pimpão – tronco de grande família paranaense e fundador da tradicional fazenda – CRUZEIRO, cujo clichê estampamos para ilustrar o presente trabalho.
No ano de 1915 o cel. João Antonio de Araújo Pimpão (Nho Jango Pimpão) mandava seu sobrinho, Mathias Pimpão, á Alfenas, em Minas Gerais, adquirir do Cél Francisco Leite, um lote de dez touros e duas novilhas, escolhidos num armentio de 600 rezes, que trouxe para sua fazenda ‘’ Campo Alto’’, uma das maiores, do município de Palmas em área e população eqüina e bovina. (Informações fornecidas pelo Senhor Mathias Pimpão, residente em União da Vitória). Naquela época o contestado ainda fazia parte do território paranaense, por isso, quando nos referimos a ‘’Campos de Palmas’’ incluímos a parte hoje anexada ao estado de Santa Catarina, pois, sua separação é apenas política, os elementos e os costumes são os mesmos.
No ano seguinte, 1916, Felippe Schell Loureiro embarcava com destino á Alfenas afim de comprar, do Cél Francisco Leite, um lóte de reprodutores, pelo preço de duzentos e cincoenta mil réis (250 000), por cabeça de animal de qualquer idade, quantum já pago no ano anterior pelo emissário do Cél Jango Pimpão. Simultaneamente com Felippe Loureiro, chegava á fazenda do Cél. Francisco Leite, uma comissão de técnicos da secretaria da agricultura do Estado de São Paulo afim de escolher um lote de ventres para aumento das matrizes dos plantéis da ‘’Fazenda Modelo de Nova Odessa’’, onde se iniciava a seleção cientifica do lindo e magnífico gado vermelho nacional. Decorridos 20 anos, do encontro em Alfenas, 1935, visitando a magnífica ‘’Fazenda Modelo de Nova Odessa’’, tivemos a grande satisfação de ver alí ainda duas vacas já velhas, sem carne, buchudas e de chifres quasi atorados, ostentando, na garupa esquerda, a marca a fogo F.L., marca do Cél. Francisco Leite, portanto, remanescentes do plantel adquirido na mesma ocasião dos nossos touros que já não existiam mais. Esses touros constituíram o alicerce melhorante do gado Caracú da ‘’Fazenda Cruzeiro’’, em Palmas, os quais deixaram numerosa descendência, porque eram preponderantes, fortes, destemidos e valentes.
Dos 21 reprodutores adquiridos, em Alfenas, por Felippe Loureiro, 1 morreu no vagon da Central do Brasil, 15 foram reservados e 5 cedidos aos seguintes fazendeiros amifos: 2 ao Cél. Francisco Belo, Já falecido, proprietário da Fazenda ‘’Salto’’; um ao Cél. Rutilio Ribas, proprietário da Fazenda ‘’Estância Nova’’; 1 ao senhor Antonio Ferreira, já falecido, proprietário da Fazenda ‘’São Martinho’’, e, finalmente, 1 ao senhor João de Araújo Pimpão (Joãozinho Pimpão) então proprietário da fazenda ‘’Conceição do Cruzeiro’’. Dos 15 touros que ficaram na fazenda ‘’Cruzeiro’’, 10 eram de 3 anos e 5 de 1 ano, especialmente previsto para os novos servirem as filhas dos criados, o que facilitou muito a rápida modificação do tipo do gado, que já tinha pelagem amarela, diminuição dos chifres, encurtamento do pelo, afinamento da calda, coloração dos chifres e cascos, etc.
No inicio do ano de 1920, faleciam, em Palmas, sem deixar descendentes, o Cél. Jango Pimpão e sua Senhora, D. Maria Joaquina de Almeida Pimpão, e no seu inventário, conforme informação dada pelo senhor Amazonas Rio do Brasil Pimpão, inventariante, coube o gado Caracu ao herdeiro Sr. Otávio Marcondes de Albuquerque, há pouco falecido, que o conservou até então melhorando-o, de acôrdo com os seus conhecimentos de criador rico e reconhecidamente caprichoso.
No ano de 1914, o Ministério da Agricultura, remetia de São Paulo, para a Fazenda Modelo, em Ponta Grossa, então dirigida pelo Agrônomo José Soares Pereira Junior, um plantel de 15 vacas e um touro, rebanho que está bem aumentado, seguindo informações colhidas com o Dr. Nelson Batista Ribas, alto funcionário do ministério naquela importante repartição e um estudioso do assunto.
Conforme dados gentilmente fornecidos pelo criador e intelectual senhor José Pedro Novais Rosas, no ano de 1912, o Dr. Javert Madureira, adquiriu do Sr. José Mário Junqueira, Fazendeiro em Ribeirão Preto, 6 Bezerros de 2 anos, de uma só côr, ao preço de Cr.$ 3.000,00 cada um, que trouxe para sua Fazenda ‘’ Capão Alto’’, em Castro. É de notar-se o elevado preço desses animais para a época, mais foi a transação efetuada entre pessoas muito ricas.
Em 1918, o Dr. Javert Madureira comprou outro lote, 12 novilhas boas, dum Madureira seu parente, em Botucatu. Diz Pedro Novais, ‘’esses animais deixaram uma produção fantástica, caixa perfeita, muito comprimento e toda colorada, com grande quantidade de leite’’. O Dr. Javert, por intermédio dos seus sobrinhos, vendeu tourinhos, no interior do Estado, principalmente em Palmas e Guarapuava, tendo o senhor Otávio Marcondes de Albuquerque adquirido dêsses animais. Com o desaparecimento do Dr. Javert Madureira, parte do gado passou aos seus sobrinhos – Sebastião e Homero Madureira, que ainda o concervam e Hoje, parte está nas mãos do senhor José Pedro Novais Rosas, no mesmo município de Castro.
No segundo Governo do Dr. Afonso Camargo, em junho de 1929, o Departamento da Agricultura, dirigido pelo Agrônomo honorário, Romário Martins, adquirio do senhor Alfredo Penteado, criador paulista, um pequeno lote de touros e novilhas que colocou na Granja do Canguirí.
Em 22-5-32, foi êsse gado vendido em hasta pública aos senhores Gustavo Ribas, Dr.Raul Péricles, Álvaro Costa e Aristeu Bittencourt. (informações colhidas nos arquivos da Secretaria da Agricultura).
Em 1920, o deputado Cél. Alfredo de Almeida, por intermédio de seu colega de bancada, deputado Rutillio Ribas, adquirio, da Fazenda Cruzeiro, um lote de 10 touros para sua Fazenda Tucundava, situada no município de Jaguariaíva.
Ao decorrer do ano de 1925, o Cél. Arthur Suplicy, por intermédio do senhor Otavio Marcondes, adquiriu da Fazenda ‘’Cruzeiro’’ um plantél de 15 novilhas e 2 touros para sua Fazenda ‘’Roseira’’, no município da Lapa. Êsse gado pastava, nos campos á margem da estrada de ferro, em promiscuidade com animais de outras raças, conforme vimos muitas vezes, eis porque deve ter desaparecido.
No ano de 1931, Brasileiro Marcondes Loureiro vendia um lote de touros da fazenda ‘’Cruzeiro’’, á criadores de diversos municípios da zona serrana, do Rio Grande do Sul. Alguns desses fazendeiros já, haviam em anos anteriores, adquirido touros da mesma procedência, por intermédio dos senhores Atanagildo, Antoninho Areia e Nadico Rocha, que faziam intercâmbio de animais nesses Estados.
No ano de 1934, o Sr.Flavio de Freitas vendeu, nos campos de Palmas, diversos touros procedentes da Fazenda ‘’Capão Alto’’, tendo a Fazenda ‘’Cruzeiro’’, adquirido 4 desses animais.
O Sr. Interventor Manoel Ribas, a quem aqui prestamos nossas homenagens, adquiriu em São Paulo, do Sr.Gabriel Jorge Francisco, criador em Olímpia, um lote de touros Caracú que vendeu a diversos criadores, inclusive aos Srs. Klass, fazendeiros em Palmeira e Palmas, dos quais 3 foram adquiridos pela Fazenda’’Cruzeiro’’.
Também não podemos deixar de mencionar aqui o comerciante de reprodutores Sr.Tobias do Vale, que tem introduzido em nosso Estado diversos lotes de touros Caracú, de várias procedências.
No ano de 1935, quando iniciamos fomento e assistência á lavoura algodoeira no Norte do Estado, percorríamos todos os Municípios da rica zona e só conseguíamos constatar a existência de gado Caracú, isto em número reduzido, na fazenda ‘’Santa Laura’’, do Sr. Pedro Melo, em Ribeirão Claro; na Fazenda dos Irmãos Cordeiro, no Município de Jacarézinho e em Cambará, o maior e melhor plantél, de mais ou menos duas vintenas de cabeças, na Fazenda ‘’Cayuá’’, pertencente á Cia. Inglesa de estrada de ferro São Paulo – Paraná e administrada por um suisso, senhor Jakas, de quem adquirimos um casal de animais de 2 anos, cuja novilha morreu na 2ª Exposição de animais e Produtos Derivados, em Ponta Grossa, e o touro, que recebeu o nome ‘’Cambará’’, deixou na Fazenda ‘’Cruzeiro” uma ótima progênie comprobatória de reprodutor preponderante, o qual depois foi vendido ao senhor Alipio Pirajá de Araujo, proprietário da Fazenda ‘’Pitanga. A Fazenda ‘’Cayuá’’, hoje em mãos do senhor Dr. Gastão de Mesquita Filho e que ainda agora (5-3-49), na V Exposição de Animais e Produtos Derivados em Ponta Grossa, concorreu com 3 touros e uma vaca, exemplares magníficos, sendo o primeiro colocado, ‘’Ibiporã’’, eleito campeão da exposição.
Nessa Exposição, um lote de 4 novilhas e 1 tourinho de dois anos, gado de campo, da fazenda ‘’Cruzeiro”, na classe, teve o primeiro lugar, declarando os abalizados técnicos, agrônomos Nelson Batista Ribas e Luiz Natal Bonin, que ‘’eram animais dignos de figurar em qualquer Exposição do País’’.
Em 1935, novos criadores de Caracú se movimentaram tanto no norte como nos campos nativos do sul do Estado, por isso que o Dr. Raul Péricles adquiriu do senhor Otávio Marcondes de Albuquerque um Plantél de 50 novilhas, que trouxe para a sua Fazenda ‘’Lagoa Dourada’’, no Município da Lapa e próxima a Porto Amazonas; também grande parte do gado da Fazenda ‘’Cruzeiro’’ era vendido ao Sr. Ernesto Yarck, que mais tarde o transportou para a Fazenda ‘’Esmeralda’’, no Estado de Santa Catarina, hoje em Mãos de seus herdeiros, o Cél. Lizandro de Araujo, abastado fazendeiro pontagrossense, também foi dos primeiros criadores a introduzir reprodutores Caracú em seu rebanho, mas, ao que parece, abandonou a iniciativa.
Nos dias que passam se vêem muitos touros Caracú dispersos nas fazendas dos diversos municípios criadores, animais tanto de propriedade particular como pertencentes ao Ministério da Agricultura, distribuídos pela inspetoria, como séde na ‘’Fazenda Modêlo’’ de Ponta Grossa. Entre esses animais, adquiridos na Fazenda de Seleção em Nova Odessa e em outras boas fontes, ha reprodutores notáveis em tipo e valor genético, alguns dos quais podemos chamar de homozígotos, porque têm sua aptidão comprovada pelo fenotípo e genotípo, da progênie, uniformes em belesa e em atributos de notável valor zootécnico.
Como se vê, os primeiros reprodutores Caracú foram introduzidos no Paraná faz 35 anos, tempo bastante para registro de dez gerações, donde se pode concluir, aceitar e admitir que, nos rebanhos concervados incólumes, incontestavelmente, existe gado Caracú puro.
Curitiba, julho de 1949
Eng. Agrônomo MÁRIO MARCONDES LOUREIRO.
Obs: cópia fiel ao original